A saga do bolo de limão, framboesa e sementes de papoula


Durante um domingo em família visitando a cidade de Morungaba, interior de São Paulo, encontrei sementes de papoula para vender. Foi na loja da Companhia das Ervas, cheia de tubinhos coloridos, geleias, conservas e pimentas. Eu nunca tinha visto as sementinhas pra vender… e sempre quis fazer uma receita de lemon poppyseed cake que eu via nos programas de culinária estrangeiros na TV. Sem titubear, peguei um dos frasquinhos e levei pra casa!

Então, chegou a hora de achar a receita perfeita! Não sou muito de fazer bolos, por isso nem um bolinho simples de limão eu tinha na manga pra incrementar com as sementes. Fui no livro na Danielle Noce, o Por uma Vida Mais Doce, e encontrei a receita exatamente do jeito que eu procurava: Bolo de Limão com sementes de papoula. Porém, a receita pedia oito ovos. Sim. O I T O ovos. Me recuso. Me recuso a colocar oito ovinhos numa receita de um simples bolo. Pra quê tudo isso? Se alguém souber a resposta, por favor me conte!

Impressionada com tantos ovos, que além de serem caros, também são bem complicados e se produzir, (Essa matéria Ailin Aleixo do Gastrolandia é ótima para conhecer mais de perto a produção de ovos no Brasil), resolvi procurar uma receita vegana. Vamos poupar algumas galinhas, né? Encontrei essa do Presunto Vegetariano e resolvi incrementar. Na minha cabeça tudo se complementava: “Humm, vou fazer um bolinho de limão, colocar as sementes de papoula, algumas framboesas e por cima uma farofinha crocante igual aos muffins americanos!”. Eu queria fazer um muffin gigantão, em uma forma de bolo inglês. Na minha cabeça estava tudo perfeito. Só na minha cabeça.

Foi um desastre. O bolo não assou, transbordou da forma, a farofinha crocante virou um torrão de açúcar com manteiga (essa parte não era vegana, rs) e o bolo ficou com um cheiro horrível. Foi pro lixo. Que dó das minhas preciosas e caras framboesas. 😦

Mas, não podemos desistir, não é mesmo? Claro que podemos, rs. Desisti da farofa e do bolo vegano e da minha vontade de fazer tudo sozinha sem encontrar uma receita específica pra minha ideia. Digitei no Google “bolo de limão com framboesa” e encontrei essa belezinha de receita. ❤ A única mudança foram as sementes de papoula que acrescentei, e o resultado ficou incrível! (Vamos deixar a farofinha pra uma próxima, né?)

Ficou tão bom que repeti, mas dessa vez substitui o iogurte por leite e eu só tinha 2 ovos na geladeira e deu certo mesmo assim. Ah, antes de dar certo mesmo, tive algumas dificuldades com o forno. Eu nunca tinha usado a forma de bolo inglês, e após 1 hora no forno o bolo ainda estava cru. Aumentei a temperatura e aí deu certo. Na segunda vez, já deixei assando a 230C por 50 minutos e ficou bem gostoso. Cada forno é um forno.

Bolo de limão com framboesas e sementes de papoula

1 1/2 xícaras de farinha de trigo
2 colheres de chá de fermento em pó (eu usei bicabornato de sódio, nesse caso, use para 1 colher de sopa)
1/2 colher de chá de sal
1 xícara de iogurte integral (também pode ser leite)
1 xícara de açúcar
3 ovos grandes (se faltar, use somente 1)
2 colheres de chá de raspas de limão (cerca de dois limões)
1/2 colher de chá de extrato de baunilha
1/2 xícara de óleo vegetal
1 xícara de framboesas congeladas
1 colher de sopa de semente de papoula

Para a calda:

1/3 xícara de suco de limão

1 colher de sopa de açúcar

Misture os o iogurte (ou leite), açúcar, ovos, raspas de limão, baunilha, óleo e as sementes de papoula em uma tigela grande. Quando estiver tudo incorporado, vá adicionando os ingredientes secos: farinha, fermento e sal. Mexa tudo com delicadeza até obter uma massa homogênea. Transfira para uma forma de bolo inglês untada e enfarinhada e asse em forno pré-aquecido por 50 minutos. No meu forno precisei assar a 230C.

Peixe ao molho branco com amêndoas

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Essa receita é inspirada em um prato do restaurante espanhol Maripili, um dos nossos preferidos aqui em São Paulo. Numa esquina descompromissada no bairro Chácara Santo Antônio, o concorrido Maripili encanta pela simplicidade. Todos os pratos, feitos para compartilhar, contém poucos ingredientes e muito sabor. Como não comemos carne, sempre nos contentamos com os frutos do mar servidos na casa: gambas al ajillo, bacalao a vizacaína e um bacalhau com molho branco e amêndoas tostadinhas de dar água na boca. Não consigo me lembrar o nome do prato em espanhol, portanto não sei se é uma receita tradicional, mas eu nunca havia experimentado. Pra falar a verdade até achava que não combinava muito bem, mas eu estava enganada. É um prato delicioso!

Como bacalhau é bem caro, resolvi tentar fazer com um filé de truta congelado que eu tinha no freezer. Deu super certo e ficou uma delícia! Acredito que qualquer peixe mais suave deve ficar bom. Para o molho imaginei que fosse um bechamel comum, mas senti vários pedacinhos de cebola quando comi no Maripili, então adicionei na hora de preparar o roux. Depois é só cobrir os filés com o molho e levar ao forno por 15 minutos. As amêndoas são tostadas na frigideira e pronto! Um jantar maravilhoso estará a sua espera. Aqui em casa resolvi servir com uma saladinha de coentro e tomatinhos e arroz cateto e negro. Buen provecho!

Peixe ao molho branco com amêndoas

  • 3 filés de truta
  • 1 cebola pequena cortada em cubos
  • 3 colheres de sopa de manteiga
  • 3 colheres de sopa (cheias) de farinha branca5
  • 500 ml de leite
  • sal, azeite e pimenta a gosto
  • 4 colheres de sopa de amêndoas em lascas

Em uma assadeira, tempere os filés com azeite, pimenta e sal a gosto. Pré-aqueça o forno a 200C e reserve. Em uma panela pequena, aqueça a manteiga até derreter e refogue a cebola por 3 minutos em fogo médio. Acrescente a farinha e mexa por mais 3 minutos. Acrescente o leite aos poucos para não empelotar. Em fogo baixo, mexa até engrossar. Acerte o sal. Cubra os filés na assadeira com o molho e leve ao forno por 15 minutos ou até que o peixe esteja cozido.  Esquente uma frigideira e coloque as amêndoas. Mexa a frigideira para não queimar até que as amêndoas estejam douradas. Sirva por cima do peixe. Se necessário, cubra o peixe com mais molho.

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Sobre o kefir de água

Kefir de água ou tibicos é o nome de uma cultura de bactérias e leveduras que fermentam qualquer líquido rico em carboidratos (ou açúcares). Em forma de grãos, esses bichinhos microscópicos se alimentam de açúcar e o transformam em ácido lático, álcool, gás carbônico e muitos minerais, enzimas e probióticos excelentes para o bom funcionamento do intestino. A microbiota do nosso sistema digestivo vem sendo estudada e muitos pesquisadores já relacionam a presença de alguns microorganismos ao autismo, imunidade, alergias e até câncer. Muito ainda precisa ser estudado e o assunto é complexo e ao mesmo tempo encantador.

Eu nunca havia ouvido falar de alimentos fermentados, mas na verdade, convivemos com uma infinidade deles todos os dias: queijos, vinhos, cervejas, ketchup, salame, chucrute, yakult, picles, licores, conservas, pão e até mesmo o acarajé. Vendo a série Cooked no Netflix e depois lendo o livro do mesmo criador, Michael Pollan (já falei dele aqui), é que me aproximei desse universo. No último capítulo, ou no último episódio, Terra, podemos ver o trabalho que tantas bactérias e leveduras fazem pela humanidade há milênios. Sem fermentação, sem a ação desses bichinhos microscópicos, que nos rodeiam a todo momento, seria impossível nos deliciar com tantos pratos maravilhosos. Além, de contribuírem imensamente para nossa saúde.

Com o advento da pasteurização (que nos salvou de muitas doenças perigosas) começamos uma guerra contra as bactérias, e com isso, matamos todas elas, inclusive as boas. Em seu livro, Pollan cita uma pesquisa sobre a H. pylori uma bactéria que foi considerada patogênica e responsável por úlceras e erradicada de nossos organismos com o uso de antibióticos. Porém, pesquisadores descobriram que a bactéria, na verdade, ajuda a regular a acidez no estômago e ainda o hormônio grelina relacionado a sensação de apetite.

Os alimentos processados também não contribuem para a manutenção dessas bactérias e leveduras em nossos organismos. Tudo é pasteurizado, por normas de segurança e saúde. Por isso é muito importante repormos nossos estoques com alimentos frescos e orgânicos, além dos alimentos fermentados (de verdade).

O kefir de água é uma opção barata e fácil de se ter em casa. Desde que ganhei os meus grãos, tento ao máximo substituir sucos ou outros líquidos nas refeições pelo kefir. Depois de alguns experimentos, conseguimos carbonatar o kefir chegando a mesma sensação do refrigerante ou água com gás! É uma coisinha mágica, mesmo! E claro, super gostoso de tomar.

Mantenho os grãos na geladeira em água e açúcar, dentro de um pote de vidro com tampa. Duas vezes por semana, troco a água dos bichinhos e alimento com 1 colher de sopa de açúcar mascavo.

Para fazer o kefir: a cada 500 ml de água filtrada adiciono 1 colher de sopa dos grãos e 1 colher de sopa de açúcar mascavo. Misturo em uma jarra com tampa e deixo em um cantinho protegido do sol por 24 horas. Depois, passo a mistura em uma peneira e volto os grãos para a geladeira. Com a água já fermentada, adiciono o sabor. Pode ser chá de gengibre bem concentrado com suco de limão, chá de hibisco, maçãs desidratadas com canela, suco de laranja com cenoura e hortelã, suco de manga com gengibre… Esses foram o que testamos até agora. Porém, você pode testar com o sabor que quiser. Muitas pessoas fazem com suco de uva, água de coco, suco de abacaxi…. a regra é qualquer meio líquido açucarado. Meios ácidos talvez não apresentem um resultado tão eficaz, mas o lema é testar e testar!

Aqui em casa, preparamos com a proporção de 1 parte de água do kefir já fermentada (sem os grãos) para 1 parte de suco ou chá + 1 colher de sopa de açúcar mascavo (se adicionar o suco de uma fruta muito doce, pule a parte do açúcar). Misturamos bem e colocamos em uma garrafa pet. Tiramos um pouco do ar da garrafa, tampamos e deixamos em um lugar protegido do sol até que a garrafa inche por completo. Depois, é só colocar na geladeira e beber geladinho.

O sabor não será doce e terá um fundo azedinho, como qualquer alimento fermentado. Talvez não seja do seu agrado, por isso vale a pena tentar outros sabores, mais um pouquinho disso ou daquilo. Percebemos que o gengibre e o limão são os melhores “aditivos” para mascarar o gostinho azedo.

Pronto! Com apenas 2 ou 3 dias você já pode provar uma bebida gaseificada naturalmente e super saudável! Para conseguir os grãos do kefir, procure alguém perto de você que possa doar. Eu mesma me ofereço, já que os bichinhos crescem muito! Meu potinho já está ficando cheio.

Para mais informações sobre o kefir de água, recomendo o blog da Neide Rigo e o site em inglês Yemoos. 

Sobre fermentação natural, recomendo que procurem o pessoal da Cia dos Fermentados em São Paulo e o livro A Arte da Fermentação, de Sandor Ellix Katz.