Sobre imigração, comida e afeto

Eu ia deixar pra escrever esse post em um outro momento, mas as recentes notícias sobre a política de imigração impostas pelo Trump no Estados Unidos mexeram comigo. Quando construímos muros, construímos medo, insegurança e barramos pessoas, histórias de vida, cultura e afeto. Fico pensando o que aconteceria se essa lei fosse vigente no Brasil na década de 50 quando meus avós imigraram, ou durante as décadas de 70, 80 e 90 quando minha vó vinha todo ano nos visitar. Fico pensando nos vários iranianos e pessoas de outras nacionalidades que foram barradas de um dia para o outro nos aeroportos sem poder visitar netos, filhos e pessoas queridas. Escrevo a minha história de afeto para que possamos enxergar o outro e enxergar pessoas ao invés de vistos, documentos, carimbos, medo e terror.

Nessas férias eu decidi ir para a cozinha com a minha vó. Disse com todas as letras que queria aprender a fazer o meu prato preferido (que só ela sabe fazer). Minha vó é iraniana. Ela nasceu em Teerã e veio para o Brasil em 1953, com 15 anos. Casou com meu vô em 1958, também imigrante do Irã, mas que nasceu no Iraque, enquanto meus bisavós ainda buscavam um país para morar depois de deixarem a Rússia. Meu pai nasceu no Brasil em 1961 e quando minha avó se separou do meu avô, retornou ao Irã e se casou de novo. Quando eu nasci, em 1989, minha avó ainda morava lá, em um apartamento em Teerã com meu vôdrasto. Ela vinha nos visitar uma vez por ano e ficava por alguns meses. Era muito especial quando ela vinha. O vôo sempre chegava de madrugada e eu adorava ir junto. Adoro ir em aeroporto até hoje. Ela chegava com um sobretudo muito elegante, sapato elegante, maquiagem e perfumada. Aquele é o cheirinho da minha vó. Ela ficava lá em casa, tinha um quarto só pra ela. Desmontava as malas e tinham sempre presentes: algumas roupas e sacos e mais sacos de pistache! Era pistache garantido por alguns meses! E vários temperos para fazer comida iraniana: xarope de romã, lemou omani, chá, shambalileh, zereshk… 

E nas primeiras noites, eu insistia pra dormir junto com ela, preu vê-la se preparando pra dormir, tirando a maquiagem e passando um creme super cheiroso no rosto, depois, deitávamos na cama e ela me contava sobre todos os países que já tinha visitado e como era viver no Irã. Depois, rezava o pai nosso em francês e íamos dormir.

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Nos meses em que ela estava aqui, muitos jantares e almoços em família eram marcados, sempre regados a fartos banquetes. Muita comida iraniana! Mas, para mim, era a comida da minha vó. Naquela época eu não entendia que era parte da cultura de um país tão grande e rico. Parecia que era uma comida que só ela sabia fazer e que não se comia em mais nenhum lugar do mundo, pois era tão especial, que só ela poderia saber fazer.

O tempo passou, eu cresci, minha vó se mudou de vez para o Brasil com o marido, e em 2010 visitei alguns parentes da minha vó e vô nos Estados Unidos. Muitas pessoas que saíram do Irã naquela época, pediram imigração para o Brasil, EUA e outros países e a família acabou se dividindo. Quando entrei na casa de uma prima do meu vô em Los Angeles e senti o cheiro característico da casa da minha vó, de lemou omani, e em cima da mesa um banquete nos aguardava com potinhos coloridos, e uma insistência carinhosa de “come, não vi você comer nada!” – a mesma da casa da minha vó, foi que a minha ficha caiu de vez. A casa da minha vó faz parte de uma cultura. A casa da minha vó é um pedaço do Irã. A casa da minha vó é um pedaço da sua infância em Teerã.

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Depois, ainda descobri que Los Angeles abriga um bairro cheio de imigrantes iranianos com restaurantes e lojas de produtos que pareciam somente habitar as malas de viagem da minha avó. Que sentimento gostoso de pertencer a uma cultura. ❤ Ainda encontrei um livro de receitas persas em inglês que contém meu prato preferido: ghormeh sabzi. (se fala rôrmê sábizí) É um cozido de carne e ervas com feijão fradinho pra comer com pilav fresquinho. É a minha comfort food. Alguns dos ingredientes, como o shambalileh e o lemou omani só dá pra encontrar nessas lojas e infelizmente no Brasil não existe – a imigração iraniana é bem pequena por aqui. Porém, dá pra comprar pela Amazon e toda vez que alguém vai para os EUA, pedimos para trazer e reforçar o estoque.

Passei uma tarde com a minha vó fazendo o ghormeh sabzi. Foi como passar a tarde com um mágico aprendendo os truques de uma mágica da minha infância. Também foi um momento de aprender uma receita de família e que espero fazer para a minha família e um dia cozinhar esse prato para meus filhos e ensiná-los sobre nossas origens. Tenho muito respeito pela minha ancestralidade que caminhou terras muito longe daqui e que um dia também espero poder visitar: Iugoslávia (que nem existe mais), Rússia, Iraque, Irã, Armênia… sinto que esses lugares me habitam de alguma maneira. Agora, deixo a receita na versão vegetariana com vocês.

 

Ghormeh Sabzi

  • 1 xícara de feijão fradinho
  • 8 lemou omani (limões persa seco) ou suco de 1 limão
  • 4 colheres de sopa de óleo
  • 1 ramo de nirá fresco picado (folha japonesa, encontra-se na feira ou em lojas de produtos orientais) fresco picado
  • 4 ramos de salsinha fresca picada
  • água quente
  • sal a gosto

Na noite anterior, deixe o feijão de molho. No dia seguinte, cozinhe na pressão e dispense o caldo. Em uma panela grande, coloque o óleo e as ervas e deixe refogar em fogo alto por 10 minutos. Coloque os limões ou o suco do limão e acrescente água quente sem cobrir as ervas. Adicione sal e o feijão (aqui também pode-se colocar proteína de soja desidratada para substituir a carne). Deixe cozinhar por aproximadamente 40 minutos, mexendo de vez em quando e completando com água se necessário. Sirva quente com pilav.

Pilav

  • 2 xícaras de arroz branco
  • 1 batata cortada em rodelas (opcional)
  • 4 colheres de sopa de manteiga (opcional)
  • 1 colher de sopa de sal
  • óleo

Lave bem o arroz e deixe de molho por 20 minutos. Enquanto isso, aqueça água em uma panela grande. Quando a água ferver, adicione 1 colher de sopa de sal e o arroz. Conte 7 minutos e escorra. Na mesma panela, coloque óleo até formar um fina camada no fundo. Adicione as batatas em rodelas, tempere com um pouco de sal e coloque o arroz formando uma montanha. Nas laterais, coloque manteiga e cubra com a tampa da panela enrolada em um pano de prato para evitar que o vapor molhe o arroz. Cozinha em fogo baixíssimo por aproximadamente 20 minutos ou até que as batatas estejam cozidas e douradas.

 

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