Porquê precisamos prestar mais atenção nos alimentos e não nos nutrientes que estamos comendo

Ovo é ruim. Ovo é bom. Gorduras são horrorosas. Gorduras são ótimas! Glúten faz mal. Glúten não é tão ruim assim.  Você precisa comer proteínas. E cálcio. Cálcio é muito importante. Consuma somente produtos integrais. Açúcar é o vilão. Você já consumiu antioxidantes hoje? Nem pense em carboidratos! O seu iogurte tem fibras? Esse sorvete é gluten free? 

Não é um pouco esquisito que nossas conversas sobre alimentação têm se reduzido tanto aos nutrientes? Pode parecer normal e até um pouco inteligente saber todas as propriedades benéficas (e maléficas) de um alimento, mas para mim isso tem prejudicado muito nossa relação com a comida e ao invés de nos ajudar a ter uma vida mais saudável está só atrapalhando.


O nome de Michael Pollan sempre aparecia em algum artigo ou notícia pela internet, mas eu nunca tinha dado muita bola, até a estreia de Cooked, uma minissérie documental inspirada em seu último livro, Cozinhar – Uma história natural da transformação. Foi instantânea minha identificação com suas ideias. Pollan é um jornalista norte-americano que se dedica, já há alguns anos, a escrever sobre comida e vai além das questões sobre saúde e nutrição. Ele investiga com mais profundidade as dimensões sociais, culturais, antropológicas, emocionais e mais humanas sobre a comida. E é exatamente essa visão sobre o alimento que me encanta.

Depois de ler Cozinhar, parti para o Regras da Comida. É um livrinho (mesmo) muito direto e prático. São 64 regras sobre o como, o quê e quais alimentos devemos comer, mas a introdução é preciosa e resume muito bem esse jeito um tanto esquisito de se alimentar, o nutritionism, termo usado pelo sociólogo Gyorgy Scrinis e popularizado por Pollan. Será que temos que saber exatamente todos os nutrientes que estamos ingerindo a cada garfada em cada uma de nossas refeições?  Eu acho isso muito chato. Até mesmo a Bela Gil me irrita um pouco em seu programa, Bela Cozinha, pois a cada ingrediente que vai cortando, vai nos dando informações e mais informações sobre os benefícios de cada um deles.  E aí começamos um seleção infinita do que é bom e ruim: selênio é bom, glúten é ruim; ômega 3 é bom, lactose é ruim…

Para Pollan, isso beneficia a indústria alimentícia, pois: “o foco é, antes, na identificação do nutriente nocivo da dieta ocidental, para que os fabricantes de alimentos possam fazer pequenos ajustes em seus produtos, deixando, assim, a dieta intacta, ou para que os laboratórios farmacêuticos possam desenvolver e nos vender um antídoto para esses vilões. Por quê? Bem, há muito dinheiro envolvido na dieta ocidental. Quanto mais se processa qualquer alimento, mais lucrativo ele se torna.” (p. 13 Regras da Comida). 

Ou seja, quando demonizamos um nutriente e louvamos outro, estamos desviando a atenção para o real problema de saúde: a dieta ocidental baseada em alimentos ultraprocessados. Pois, se o problema está no nutriente, a solução é fácil: tomamos pílulas e colocamos aditivos nos alimentos industrializados. O caso da farinha de trigo branca exemplifica bem isso. A farinha produzida hoje é tão refinada que ao final o produto obtido não tem nenhum valor nutricional. Bom, poderíamos rever a produção de farinha e trigo, não é? Aprimorar os processos de produção, priorizar a farinha de trigo integral, estudar os melhores tipos de trigo e assim por diante. Mas a solução foi fortificar a farinha. E até hoje comemos uma farinha porcaria e a qualidade da farinha integral produzida aqui no Brasil é péssima. (Os padeiros de fermentação natural que o digam!)

A mesma coisa para produtos sem lactose, com adição de fibras, sem gorduras saturadas…. Esses produtos exibem em letras grandes esses “benefícios”para que você se iluda e pense que está se alimentando melhor ao consumi-lo. Mas será que é verdade? O que é melhor? Um iogurte natural batido com morangos de verdade ou um iogurte grego sabor morango com adição de fibras, proteínas e blablabla?

Bom, mas comer não é só uma função fisiológica, certo? Quando eu escolho comer um iogurte com morango, não é só a fome que determina essa escolha. Motivos culturais, sociais e emocionais fazem parte disso. Ao salivarmos quando vemos um hambúrguer, pão fresquinho ou uma barra de chocolate nosso cérebro não pensa: hum, que monte de carboidratos, proteínas e gorduras suculento e gostoso! ou que monte de glúten fofinho ou ainda, quantos antioxidantes e açúcares deliciosos! Os alimentos nos despertam lembranças e emoções que são parte muito importante da nossa alimentação. A comida também precisa nutrir nossa alma.

Portanto, olhar com mais calma e sensibilidade para nosso alimento faz toda a diferença. Mecanizar nossas refeições está nos tornando menos humanos. E isso inclui fazer dietas. A SuperInteressante desse mês publicou novamente uma matéria de 2009 da Claudia Carmello sobre dietas: Dieta sem segredo e é categórica: nenhuma dieta funciona. E para mim a razão é simples: ao fazer dieta você passa a enxergar somente os nutrientes e calorias da comida e isso não é saudável.

Precisamos nos reconectar com os saberes alimentares antigos, com os ciclos da natureza, entender os processos de produção de comida, e resgatar tradições culturais que falam sobre a comida. E cozinhar nos aproxima de tudo isso. Não vou nem citar os números de pesquisas que comprovam que cozinhar sua própria comida influencia em um melhor peso, melhor saúde e por aí vai. Por isso, ao invés de conversamos sobre os nutrientes da vez, que tal trocarmos mais receitas? Em vez de falarmos sobre dietas, vamos cozinhar juntos. Prepare uma refeição para quem você ama e dedique tempo para isso. Aposte mais na simpleza dos alimentos e das relações.

 

 

 

 

Simpleza

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Desde o primeiro episódio de MasterChef Brasil eu me encantei pela Paola Carosella. O jeito como falava com os competidores e sobre os alimentos era muito especial, mas até então nunca nem tinha ouvido falar de Paola. Joguei no Google e apareceu uma reportagem dizendo que ela não tinha TV (já me apaixonei). Logo em seguida, o site de seu restaurante, Arturito. O layout, delicado e simples. A descrição do cardápio só confirmou que o seu trabalho era especial. Adorei ler: sorvete de baunilha artesanal, ovos de galinhas felizes, verduras orgânicas… ❤ Desde então, passei a acompanhar seu trabalho.

Eu e meu marido fomos ao seu restaurante comemorar o meu aniversário e foi um baita de um presente! Comida fresca, simples e orgânica definitivamente fazem a diferença. Provar o menu foi como receber um abraço. Saímos encantados com a comida. Depois, no Natal, levamos um presente para ela: o livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil, ideia do marido <3.

Não sabíamos se a Paola iria estar no restaurante naquele dia. Mas para nossa surpresa, ela apareceu na área de espera do bar, com um avental, lenço na cabeça e um pano nas mãos, limpando a mesinha de centro e nos cumprimentando com um sorriso e um olá. Ela recebeu o livro e ficou muito agradecida, disse que já tinha ganhado um, mas que ia deixar um em casa e outro no restaurante. Logo depois, recebeu uma menina de uns 10 anos que estava super emocionada, a abraçou e foi super atenciosa.

No começo de 2015 tive o privilégio de assistir sua primeira aula de empanadas na Livraria da Vila. Ali eu pude conhecer um pouquinho mais da Paola: que mulher forte, determinada, autêntica e generosa! Nada de maquiagem e roupas chiques como no programa. A Paola é ela mesma e não esconde. “Venham aqui perto pra ver as empanadas! Quem quer me ajudar?”

Depois de uma aula tão valiosa, tive um insight. Naquele ano eu e Thiago estávamos nos planejando para casar. Queríamos fazer uma coisa simples, para poucas pessoas e com comida verdadeiramente boa. Não era fácil achar um lugar que se encaixasse nesses padrões. Quando se fala em casamento tudo fica caro, luxuoso e cheio de firulas sem significado algum para nós. Enquanto degustávamos as empanadas, o Thiago chegou para me buscar. Peguei na sua mão e disse: “Vamos perguntar para a Paola! Ela vai saber de um lugar bom!”. Iniciamos a conversa e ela sugeriu o restaurante Mangiare, do seu sócio.

E no final, nos casamos lá e foi tudo como queríamos ❤ Comida italiana servida em grandes travessas (e quantidades!), com ingredientes simples, porém de qualidade, e com nossos convidados compartilhando duas grandes mesas no salão do restaurante. Ai, se não fosse a Paola….

VF Fotografia - 2015-08-08 - Casamento Giulia e Thiago (Mangiare) (164)

(quem quiser saber mais sobre o casamento tem um post aqui.)

Quase um ano depois, encontrei a Paola novamente. Em uma aula no Ateliê Muriqui na Vila Madalena. Entre as panelas, Paola parecia estar na cozinha da sua casa, nos ensinando receitas simples que ela mesma faz no dia-a-dia. Qualquer dia posto uma delas aqui… ❤

Ao final da aula, esperei todos falarem com a Paola para chegar a minha vez e agradecê-la. Ela se lembrou de mim, perguntou como foi o casamento e eu disse que só queria agradecer pois foi tudo como eu sonhei, e o mais importante: simples, singelo, cheio de significado para nós, e com a comida honesta e boa como queríamos. Ela me ouviu, me olhou e disse: “Parabéns por escolher a simpleza.” Meus olhinhos se encheram de lágrimas (e os do Thi também quando eu contei) e pedi uma foto.

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Simpleza. Escolhi a simpleza… e a Paola Carosella estava me dizendo isso. Naquele momento, muitas coisas que eu já buscava se confirmaram para mim. Uma vida mais simples, ligada aos saberes mais tradicionais que nos tocam lá no fundo, pois são sabedorias antigas e essenciais do ser humano. Uma vida com menos consumismo, extremismos, menos ligada ao dinheiro e aos bens materiais. Uma vida que nos conecte ao que é essencial e não ao supérfluo, que se baseie nas relações, nas conversas, nas pessoas, na natureza. E para mim a simpleza está em tudo, mas é na minha relação com a comida que ela fica mais forte.

E por isso o nome do blog será Simplezas. Uma homenagem a ela. Gracias Paola ❤

Simpleza

s.f. Qualidade daquilo que é simples; característica do que não é complexo; desprovido de complicação.
Que não é composto.
Falta de luxo; sem sofisticação.
Modo de se comportar espontâneo; falta de pretensão.
De natureza autêntica; que não se altera por componentes exteriores.
Modo autêntico e espontâneo de se expressar (falar ou escrever); elegância.
Característica, particularidade ou natureza da pessoa sincera; franqueza.